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27 de outubro de 2015

EXAME NACIONAL DE ENSINO SOBRE MULHER

Diante de tantas e inaceitáveis lamúrias sobre o tema da redação do ENEM, eu que nunca exponho minhas opiniões em redes sociais, não resisti em relatar o que penso, não apenas a respeito da escolha do tema, mas, MUITO MAIS sobre a reação dos brasileiros.

Sou fiscal do ENEM há dois anos e, especialmente este ano, por mera coincidência (ou não) fui colocada em uma sala onde compareceram 30 aluno, 29 mulheres e apenas um homem. No primeiro dia de prova achei o fato interessante, e cheguei a brincar com o único candidato parabenizando-o pela felicidade de estar sozinho no meio de 29 garotas. Fiquei ainda mais feliz quando, ao dizer que ele havia se dado bem, o rapaz me respondeu com um “Graças a Deus” de alto e bom som.

O segundo dia de provas começou me marcando pelo fato de que outros dois garotos que espionavam da porta as demais salas antes de adentrarem as suas, discutiam sobre a mesma coincidência desproporcional na sala em que trabalhei:

Fulano, olhe pra esta sala, só tem mulher!
EU: Não, tem um rapaz no meio delas, olha ele alí…
-É, esse aí se armou. Se eu pudesse trocar de sala viria fazer companhia a ele.

Eis que o diálogo se encerrou, iniciamos a prova, e minha intensa curiosidade estava a mil quanto ao aguardado tema da redação. Isto porque eu havia chutado no dia anterior que o tema seria algo relacionado a uma questão de gênero. Dito de certo.
Muito mais que um “achismo”, meu chute se baseou em uma necessidade. Talvez aqueles 30 candidatos que estavam na minha sala não conhecessem tanto a Lei Maria da Penha quanto eu (estudante de Direito); talvez alguns deles não soubessem se quer o significado da palavra feminicídio (ou talvez eu os esteja subestimando, e se for o caso me perdoem por isso); talvez por serem muito jovens (a maioria tinha entre 14 e 16 anos) e de uma cidade do interior baiano, aqueles adolescentes não tivessem a total noção da gravidade do problema abordado como tema da redação; mas o mais importante foi que nenhum deles se recusou a fazê-la (e sim, em outras salas alguns candidatos se recusaram).

Por uma questão de ética não cheguei a ler os textos, mas saber que ali todos tinham algo para dizer a respeito já era um alívio. Saber que a violência contra a mulher existe, encará-la, discutir sua problemática e apontar uma solução, pelo menos para me já representou um grande avanço.
Fato que uma quebra de tabu não foi a única coisa que me veio à cabeça, pois meus pensamentos eram todos sobre Os alunOs, Os candidatOs, Os jovens, Os adolescentes da minha sala… E por causa de um único homem, lá estava eu, mudando a vida de 29 mulheres. Tão trágico que chega a ser cômico enaltecer um homem perante 29 mulheres por uma questão de linguagem justamente quando se deve falar de mulher na prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.

Ao sair da prova e finalmente ter acesso à internet, me deparei com o caos que havia se instalado e que, a meu ver, não funcionou nada mais nada menos do que como prova material de que existe muita “persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. 

Acho que três foram os principais erros que a grande maioria cometeu:

  1. Feminicídio não é cometido apenas por homens;
  2. Essa não é uma questão de igualdade, e sim de Justiça;
  3. Existem muitas formas de se matar uma mulher.

Existem sim, mulheres que não respeitam a elas mesmas, que se acham no direito de achar que outras mulheres são obrigadas a seguir o tal “padrão tradicional de família patriarcal”. E não, mulher nenhuma é obrigada! (A NADA!)

Outro mero engano é pensar que apenas homens que batem ou assassinam suas parceiras, estão cometendo feminicídio. Há o feminicídio gastronômico, para aqueles que matam mulheres ao pensar que o lugar delas é exclusivamente na cozinha. Temos o feminicídio egoísta, para os gays que se acham no direito de se relacionar com mulheres (casar e ter filhos com elas) apenas para manter uma imagem social de que são heterossexuais. Fácil de ser identificado, o feminicídio mais grosseiro de todos está nas ruas; me refiro àqueles que se acham no direito de dizer o que querem e bem entendem pra qualquer mulher que usa uma roupa curta ou um certo decote (me poupem dos seus “pediu pra ouvir”). Talvez mais doloroso do que qualquer tapa na cara, o feminicídio da prole acaba com qualquer mulher, e o parceiro entende que pode estender as agressões aos filhos. E o feminicídio político que apoia seres como Bolsanaro e Feliciano.

“Fui criado assim.” 
“Meu pai também fazia isso.”
“Ela gosta de apanhar.”
“Trabalhar pra que se eu ganho suficiente por nós dois?”

Maior imbecilidade que isso, impossível! Como não pensar que pensamentos assim estão diretamente ligados à transformadora EDUCAÇÃO? Não é irônico comparar as estatísticas de feminicídio no Brasil com a quantidade de mulheres inscritas no ENEM? – Especialmente na minha sala? – Não somos maioria neste quesito à toa… Volto a dizer que essa está longe de ser apenas uma questão de mera igualdade, o que se quer aqui, é justiça. É dar o maior pedaço a quem tem mais fome, é dar mais oportunidade pra quem tem menos chances de crescer na vida, é deixar que uma mulher seja o que ela quiser uma vez que sua trajetória foi toda baseada em machismo, patriarcalismo e claro, babaquismos.

“MAS VOCÊ NÃO É LÉSBICA, É BRANCA E NUNCA APANHOU DE UM NAMORADO, POR QUE VOCÊ ESTÁ SE DOENDO?”

Primeiramente: MESMO QUE FOSSE.

Segundamente: não estou me doendo, estou me doando!

Sim, eu estou me doando a uma causa que não é minha porque sou mulher, mas é de todos nós (homens, mulheres, crianças, adultos, idosos, gays, heteros, azul, verde, branco, negro e o estopô) porque somos uma sociedade!!!! É verdade que genocídio, infanticídio, e tantos outros homicídios existem para ser debatidos, mas eu duvido muito que a polêmica fosse menor se o ENEM tratasse deles. Acho justo que tratem nos próximos anos, porque estou louca para dizer: esqueçam essa estória de que o choro é livre e, simplesmente, comecem a parar de chorar. Porque vai ter mulher na presidência sim! Vai ter mulher ganhando igual ao homem sim! Vai ter mulher fora da cozinha, fora de casa, fora do país e ganhando o mundo siiiiim! Sem choro se na mesma proporção que você chama a companheira de “minha mulher”, ela passe a te chamar de “meu homem”. Acabou o direito a mimimi quando você se ver algemado por ter encostado um dedo em qualquer Senhora, senhorita, moça, M.U.L.H.E.R.

A Maria é da Penha, não é de ferro, mas as grades da prisão são!

PS: minha gratidão e respeito ao digníssimo Brendo, o rapaz que não se sentiu intimidado, enojado, nem se enraiveceu ou se incomodou com os 29×1. O mundo precisa de mais Brendos, de mais homens respeitosos independente de sua opção sexual, mais homens que reconheçam nossa força independente da profissão, nossa inteligência independente de títulos, nossa humanidade independente de sexo. Parabéns a todos os Brendos que estão por aí, vs podem mudar a vida de mais de 29 mulheres… pra melhor!

                                                                                                                                                       Por Andressa de Figueiredo – Estudante de Direito e estagiária do SINPRF – BA

porPor: Ascom/PRF-BA

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